A ovelha é, sem dúvida, o animal mais mencionado na Bíblia e aparece, de alguma forma, em mais de 500 versículos. Nenhum outro animal tem um significado simbólico tão profundo. Quer seja como animal de sacrifício, destacando a pureza, a inocência e a indefesa, ou como representação do ser humano caído na sua dependência, desorientação e perdição – ela desempenha um papel importante em muitas passagens do Antigo e do Novo Testamento. Em acréscimo, estão associadas outras ilustrações, como a do «rebanho» como símbolo do povo de Deus e a do «bom pastor» para líderes humanos que governam em nome de Deus, ou ainda para o próprio Deus – como o «Bom Pastor».
A tribo dos caprinos (Caprini) engloba todas as espécies de ovelhas, cabras e íbex, pelo que não é possível afirmar com certeza quais são as afinidades filogenéticas exatas e as origens das ovelhas no Médio Oriente. Se as espécies que aí vivem hoje tivessem sido domesticadas a partir de animais selvagens ou assilvestrados, então o muflão (Ovis gmelini musimon) seria o seu parente vivo e antepassado mais próximo.

A ovelha doméstica (Ovis gmelini aries) atual apresenta uma grande diversidade de raças. Hoje em dia, estão registadas 93 raças principais no DAD-IS (Domestic Animal Diversity Information System). É praticamente impossível reconstruir quais eram as raças predominantes na época bíblica. É muito provável que a ovelha Jacob (ou ovelha de quatro chifres) estava entre elas. Há uma referência bíblica direta de que eram criadas ovelhas de cauda gorda. O seu notável prolapso glúteo visivelmente espesso armazena até dez quilos de gordura, desempenhando assim uma função semelhante à das bossas dos camelos. A sua cauda é mencionada na Bíblia e designada por alja (Ex 29:22; Lv 3:9; 7:3; 8:25; 9:19).
Tal como já foi referido no caso das cabras no capítulo anterior, a terminologia das ovelhas também tem uma multiplicidade de designações diferentes. Tanto em alemão como em português, a palavra «Schaf» = «ovelha» designa tanto a espécie no geral como o animal fêmea (mãe) com mais de um ano de idade. O animal macho é apelidado de carneiro. Em alemão, dá-se o nome «Hammel» aos machos castrados. Eles não aparecem na Bíblia, porque a castração de animais não era praticada na cultura judaica. As crias de ambos os sexos recebem o nome de «cordeiro» até completarem um ano de idade. Por isso, os animais de sacrifício com exatamente um ano podiam ser igualmente chamados de «cordeiro» ou «ovelha», como se vê na «citação livre» de Isaías 53:7.8 segundo a LXX grega em Atos 8:32. As crias são chamadas de «cordeiros de leite» até atingirem meio ano de idade, antes do desmame. As palavras hebraicas śeh (36x) e keśeb (13x) são termos gerais para designar uma ovelha. Contudo, a palavra ṣō’n, que geralmente significa gado miúdo, ou seja, tanto ovelhas como cabras, também é traduzida por «ovelha» quando o contexto assim o indica (na tradução bíblica alemã Elberfelder consta em 58 versículos). Em parte, as cabras são mencionadas separadamente nestes versículos, o que torna a classificação clara.

Existe uma palavra especial para as ovelhas-mãe: raḥel (Gn 31:38; 32:14; Ct 6:6; Is 53:7), que corresponde ao nome feminino Raquel (45x). O carneiro é designado por ’ajil (135x). Embora os carneiros não sejam tão agressivos e defensivos como os bodes, a sua designação é igualmente transferida para «líderes» humanos: «e tomou os poderosos da terra» (Ez 17:13) e «Então, os príncipes de Edom se pasmarão» (Ex 15:15). A palavra deriva de uma raiz que expressa firmeza. Não admira, portanto, que em 17 versículos esta palavra também se refira a uma «coluna». A palavra aramaica para o carneiro é dekar (Ed 6:9.17; 7:17). Os cordeiros, que desempenhavam um papel especial como animais de sacrifício, são designados pelo termo hebraico keḇes (99x) e pelo termo aramaico immar (Ed 6:9.17; 7:17). A expressão «cordeiro de leite» também tem uma correspondência exata em hebraico: ṭale ḥalav (1Sm 7:9). Para as ovelhas criadas principalmente para a produção de carne, havia ainda a designação kar (9x), que reaparece no nome de lugar Bet-Car (Casa das Ovelhas de Abate, 1Sm 7:11), e em combinações como ṣō’n ṭibḥa (ovelha para abate, Sl 44:22) e ṣō’n ma’akal (ovelha para alimento, Sl 44:11).
A expressão do Salmo 44:22 é citada no NT para descrever os sofrimentos dos crentes: «Por amor de ti somos entregues à morte todos os dias; fomos considerados como ovelhas para o matadouro» (Rm 8:36, KJA). Aqui, a expressão grega probata sphagēs designa as ovelhas de abate. Em grego, probaton (37x) é o termo geral para designar a ovelha, enquanto que amnos (Jo 1:29.36; At 8:32; 1Pe 1:19) e aren (Lc 10:3) se referem aos cordeiros. Em Apocalipse, João dá um destaque especial ao escolher sempre a forma diminutiva arnion (28x), que representa cordeiros muito jovens. Assim, ele enfatiza a inocência, a pureza e a indefesa do Senhor Jesus como o Cordeiro «que parecia que tinha sido morto» (Ap 5:6) e cria um forte contraste com a imagem do leão, que exprime poder e domínio.
Não há nenhuma outra espécie animal descrita na Bíblia como mais vulnerável e indefesa do que as ovelhas. Sem os cuidados do pastor, elas em pouco tempo jazem «aflitas e desamparadas» (Mt 9:36, NVI). Elas desviam-se, perdem-se e não conseguem encontrar sozinhas o caminho de volta para casa (Is 53:6; Ez 34:4-6; Mt 10:6; 15:24; 18:12.13; Lc 15:4.6; 1Pe 2:25). Elas caem numa cova (Mt 12:11). Os predadores dispersam e espantam o rebanho (Ez 34:4.16; Mq 4:6; Mt 26:31; Mc 14:27). Os animais isolados ferem-se durante a fuga e ficam mancos (Mq 4:6; Sf 3:19), são roubados (1Sm 17:34; Am 3:12; Jo 10:12), morrem (Zc 11:16) ou são pisoteados e dilacerados (Mq 5:8). Na maioria das raças, os carneiros até têm cornos impressionantes, mas quando um animal selvagem se aproxima, eles fogem, e todo o rebanho começa a correr em pânico. Como correm devagar, têm pouca resistência e não conseguem trepar, saltar ou esconder-se, as ovelhas são uma presa fácil; quase nenhum outro animal está tão indefeso diante dos seus caçadores.

Além disso, são suscetíveis a parasitas e doenças (Ml 1:8.13) e sensíveis a plantas venenosas, que não reconhecem como perigosas. Como os carneiros não são tão dominantes entre as ovelhas como os bodes entre as cabras, o animal líder de um rebanho não é, geralmente, um carneiro, mas sim uma ovelha experiente. As diferenças de hierarquia tornam-se evidentes durante a competição por posições cobiçadas. E mesmo que a hierarquia dentro do grupo, a «ordem de liderança», não seja muito pronunciada, o rebanho muitas vezes só se acalma quando o pastor está presente. As ovelhas de raça pura para a produção de lã precisam de ser tosquiadas regularmente; além disso, algumas ovelhas precisam de ajuda humana durante o parto e não conseguem «parir» sozinhas. Não é apenas a desorientação, a vulnerabilidade e o desamparo destas ovelhas, mas também características como o instinto de pastoreio, a teimosia, a obstinação, a timidez e tendência para comportamentos irracionais que fazem delas uma metáfora para os humanos sem liderança. Por isso, as ovelhas são inseparáveis da pessoa do pastor.

Existem muitas situações em que uma ovelha depende da ajuda do pastor. Isto culmina quando uma ovelha rola ou cai de costas, sendo muitas vezes incapaz de se levantar novamente sozinha. Os outros animais do rebanho não se apercebem da sua situação e não a ajudam. Nesta posição vulnerável, a ovelha «encalhada» torna-se presa fácil, mesmo para as aves de rapina mais pequenas. Além disso, o rúmen incha e pressiona o coração, os pulmões e os vasos sanguíneos e, se estiver grávida, acresce ainda a pressão do útero. A circulação sanguínea e a respiração ficam tão debilitadas, que o animal morre muitas vezes em poucas horas. É provável que não haja outro exemplo na criação de um animal que se coloca subitamente em perigo de vida, num ambiente absolutamente pacífico, como a pobre ovelha jazida de costas na relva plana e verde, com as quatro patas esticadas para o céu, tendo que de ser virada novamente para não morrer.

Há determinadas circunstâncias que aumentam o risco de uma ovelha cair subitamente de costas. Isto acontece com maior frequência nas ovelhas gestantes, pois geralmente transportam gémeos e, portanto, são mais pesadas e robustas. Além disso, entre as «raças de lã» — os animais com lã particularmente densa e pesada — e entre as «raças de carne» — os animais mais bem nutridos e gordos — correm o maior risco. Ou seja, são precisamente os animais mais fecundos, mais produtivos e visivelmente mais abençoados que correm o maior risco de cair repentinamente num ambiente aparentemente seguro. Isto faz-nos lembrar do aviso bíblico: «Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia» (1Co 10:12).
Quem fala de ovelhas domésticas precisa também de mencionar o trabalho do pastor, sem cujo cuidado elas não sobreviveriam. Muitas figuras bíblicas, tanto homens (como Abel, Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, Davi, Amós) e mulheres (como Rebeca, Raquel, Zípora), eram pastores. É evidente que o cuidado altruísta com os animais proporcionou um excelente treino para futuras funções de liderança com pessoas. A forma como este serviço se apresenta na prática, pode ser estudada no Salmo 23. Esta passagem, juntamente com a oração do «Pai Nosso», é considerada como um dos textos bíblicos mais conhecidos. Neste salmo são apresentados: cuidado, restauração, orientação, auxílio, consolo, comunhão, paz, alegria e confiança – tudo o que só Deus pode dar de forma perfeita. E dificilmente alguém poderia ter descrito Deus como o seu pastor pessoal melhor do que Davi, pois ele próprio foi pastor de ovelhas e, mais tarde, como rei de Israel, considerou-se como um «pastor de homens» (2Sm 24:17; Sl 78:70-72).


- «O SENHOR é o meu pastor» – Entre a ovelha e o pastor existe uma relação. Não é apenas uma relação de propriedade, mas também um conhecimento e reconhecimento mútuos. Estudos mais recentes demonstraram que as ovelhas têm capacidades extraordinárias para reconhecer rostos e vozes (cf. Jo 10:3.4.14.16.27). O pastor também conhece as suas ovelhas e sente-se responsável por elas (Jo 10:11-15.28). Quando o profeta Natã conta a história de um homem que possuía apenas uma cordeirinha, à qual era muito apegado, e que lhe foi roubada, o coração de pastor de Davi torna-se evidente: «Então, o furor de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem, e disse a Natã: Vive o SENHOR, que digno de morte é o homem que fez isso» (2Sm 12:5).
- «nada me faltará» – Um bom pastor conhece e satisfaz todas as necessidades das suas ovelhas. Ele sabe melhor do que ninguém o que os animais precisam a cada momento.
- »Deitar-me faz em verdes pastos» – Especialmente em regiões áridas, as zonas de pasto devem ser alternadas regularmente de acordo com um plano bem elaborado. Em Israel não se praticava a fenação – a pastagem dependia unicamente das condições naturais: «Quando se mostrar a erva, e aparecerem os renovos, então, ajunta as ervas dos montes…» (Pv 27:25). O sobrepastoreio danifica a vegetação, destruindo-a, sendo ainda espezinhada pelos cascos. Além disso, os parasitas, que são excretados nas fezes e ingeridos novamente durante o pastoreio, podem espalhar-se facilmente por todo o rebanho. O pastor também se certifica de que não existem plantas venenosas no pasto e, se necessário, arranca-as para proteger as ovelhas.
- »guia-me mansamente a águas tranqüilas» – As ovelhas não são animais do deserto como as gazelas ou os camelos e, em regiões secas, necessitam de 3 a 6 litros de água por dia (as fêmeas lactantes até 10 litros). O pastor assegura que todos os dias haja acesso a um bebedouro ou uma cisterna (Sf 2:6) e organiza as ovelhas para beberem de maneira a não contaminar a água. Se revolverem o sedimento no fundo (Ez 34:18), o risco de infeções por parasitas aumenta.
- »Refrigera a minha alma» – O pastor sabe o descanso que os seus animais precisam. Se as ovelhas não descansarem o suficiente para ruminar e amamentar, isso pode ser fatal para elas (Gn 33:13).
- »guia-me pelas veredas da justiça» – Já foi mencionado o reduzido sentido de orientação das ovelhas. O pastor não só evita que elas se percam, como também conhece os caminhos mais seguros e mais curtos entre pastos, bebedouros, locais de descanso e currais.
- »Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo» – Muitas vezes, o caminho para chegar até aos próximos pastos férteis na serra, é atravessado por vales. Por um lado, os trilhos dos vales têm menos declive, oferecem mais sombra e passam mais frequentemente por ribeiros e pequenas lagoas do que as veredas de montanha; por outro lado, os predadores encontram aí abrigo para se aproximarem sorrateiramente do rebanho sem serem vistos. Sem o acompanhamento e a presença do pastor, as ovelhas estariam aqui extremamente ameaçadas. Nas colinas da Judeia que David tem em mente, os vales são frequentemente leitos de rios secos (uádis), que podem transbordar subitamente durante as chuvas, mesmo que caiam longe. Ainda hoje, muitas pessoas perdem a vida em Israel por causa disso. Normalmente, o pastor vive junto do rebanho e habita na «tenda de pastor» (Is 38:12, KJA).
- »a tua vara e o teu cajado me consolam» – A palavra hebraica šēḇeṭ, que aqui é traduzida por «vara», designa neste contexto um cacete robusto, que servia como uma ferramenta multiusos. Podia ser usada como arma (2Sm 23:21; 1Cr 11:23) e era afiada numa das extremidades, podendo, assim, ser usada como lança (2Sm 18:14) ou como enxada, para desenterrar plantas venenosas. Era utilizada para contar ovelhas, provavelmente deixando-as passar uma a uma por debaixo de uma abertura estreita (Lv 27:32; Jr 33:13; Ez 20:37), para as disciplinar e para as guiar (Is 9:4). A vara tornou-se, como «cajado de pastor», um símbolo do pastor (Mq 7:14) e, metaforicamente, um símbolo do governante que lidera o seu povo. Neste contexto, a palavra é muitas vezes traduzida por «cetro» (por ex. Sl 45:6; Ez 19:14) ou por «vara», quando se refere ao poder disciplinador do governante (por ex. Sl 89:32; Is 11:4). Já a palavra miš‘ēnāh, que aqui é traduzida por «cajado», designa um bastão comprido ou bengala, no qual o pastor se apoia (Ex 21:19; Zc 8:4) e com o qual conduz as ovelhas. Juntos, ambos indicam que o pastor exerce um bom governo sobre as suas ovelhas, corrigindo-as, guiando-as e protegendo-as.
- »Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos» – As ovelhas só relaxam quando se sentem seguras de «inimigos» externos, como predadores e serpentes, e quando a rivalidade entre elas diminui. Então, pastam até ficarem saciadas, deitam-se tranquilamente, ruminam e descansam. Deus conduz as Suas ovelhas por este mundo, mesmo que muitas vezes estejam cercadas de inimigos – até que o último inimigo, a morte, seja destruído (1Co 15:25.26).
- »unges a minha cabeça com óleo» – Algumas traduções saltam diretamente para o sentido figurado: «Tu me recebes como convidado de honra» (Sl 23:5, NTLH). Sem dúvida, Davi faz alusão aqui a esse significado mais profundo, que se encontra muitas vezes na Bíblia. As cabeças dos reis, sacerdotes e profetas, bem como as dos convidados de honra (Lc 7:46) eram ungidas com óleo (e, na simbologia do Novo Testamento, até se pode reconhecer no óleo uma ilustração do Espírito Santo: At 10:38; 2Co 1:21). Curiosamente, este versículo também descreve, literalmente, o procedimento prático de um pastor que trata a cabeça dos animais com óleo. Os ectoparasitas, como as carraças, as sanguessugas, os piolhos, os piolhos-da-lã e as moscas-da-ovelha, que se fixam sobre e por debaixo da pele do animal, podem assim ser combatidos eficazmente. O óleo veda os seus poros respiratórios (espiráculos), sufocando-os. É possível que naquela época também já se conhecesse o efeito de substâncias naturais repelentes, como o enxofre, o alcatrão, os extratos de cedro, lavanda ou taninos, que podiam ser misturados e ainda podiam afastar insetos incómodos como varejeiras, mutucas e mosquitos.
- »o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR por longos dias» – No final, o significado mais profundo do Salmo passa completamente para o primeiro plano. O cálice a transbordar é uma ilustração da disponibilidade ilimitada do verdadeiro Pastor para abençoar e presentear. Enquanto que os pastores humanos são guiados por considerações económicas e pela ponderação entre custo e benefício, Deus age com bondade, benevolência, amor, graça e misericórdia, porque isso está na Sua própria natureza. E, embora as ovelhas acabem por ser abatidas no final, o propósito de Deus para a humanidade é que esta esteja com Ele por toda a eternidade.

Reconhecimento facial. Porque é que os cientistas têm tanta certeza de que as ovelhas não só conseguem reconhecer as vozes humanas, como também distinguir os seus rostos? A experiência aqui descrita (segundo Knolle et al.) apresentou resultados muito convincentes. Como muitas experiências são estruturadas de forma semelhante, vale a pena acompanhar o procedimento e usar este exemplo.



Primeiro, as ovelhas descobrem que o dispensador de comida de vez em quando liberta umas guloseimas. Depois, apercebem-se de que conseguem, com o seu comportamento, provocar que algo saia. Assim deixam-se treinar (A). Primeiramente, aprendem uma regra simples: se tocarem com o focinho na abertura acima da qual aparece algo no ecrã, recebem uma recompensa. Na segunda fase do treino, percebem que não é irrelevante o que aparece ali, mas que apenas o rosto humano deve ser selecionado. Na terceira fase, entendem que se trata do rosto específico que já lhes é familiar. Depois deste condicionamento, passa-se à ronda seguinte (B), e não é problema para as ovelhas voltarem a reconhecer o bonito rosto da atriz Emma Watson, mesmo de diferentes ângulos, com penteados diferentes (e outras variações: óculos, chapéu, parcialmente tapado, etc.). Para tornar o resultado «à prova de bala», ainda se mostrou que tudo isto funciona com diferentes ovelhas e com diferentes rostos, e que as curvas de aprendizagem têm sempre uma forma semelhante (C).
Embora o ofício de pastor esteja intrinsecamente ligado às suas ovelhas, este artigo centra-se principalmente nos animais. Uma análise detalhada dos muitos aspetos instrutivos que a Bíblia relaciona com o pastoreio, tanto no Antigo como no Novo Testamento, excederia o âmbito desta obra. Segue-se, por isso, apenas alguns exemplos. Ezequiel 34 refere-se aos líderes do povo de Israel, que eram maioritariamente maus pastores. Mas, olhando para o futuro, já reconhecemos Jesus Cristo, o ÚNICO Pastor, o «Filho de Davi» e o «verdadeiro Davi»: «E levantarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as há de apascentar; ele lhes servirá de pastor» (Ez 34:23) e «Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente» (Is 40:11).
O Salmo 23, comentado na secção anterior, mostra-nos «o nosso Senhor Jesus, o grande Pastor das ovelhas» (Hb 13:20), tal como Ele atua nos dias de hoje com e entre os crentes. O capítulo anterior, o Salmo 22, retrata o passado, a Sua morte e a Sua ressurreição, tal como descrito por João: «Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas […] eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la» (Jo 10:11.18). O capítulo seguinte, o Salmo 24, mostra, por sua vez, algo que só se revelará no futuro: «E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória» (1Pe 5:4). Então todos os seres humanos reconhecerão que o «Cordeiro de Deus» (Jo 1:29) é também o Pastor: «porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e lhes servirá de guia para as fontes das águas da vida» (Ap 7:17). Em síntese: os três Salmos messiânicos 22-24 mostram-nos o Senhor Jesus como o Bom Pastor, que morreu por nós (22), o Grande Pastor, que hoje nos apascenta e está connosco (23), e também o Sumo Pastor, cujo sábio governo futuro nunca terá fim (24).

Na Bíblia, a prosperidade é mais frequentemente expressa pelo tamanho dos rebanhos de gado miúdo e, especialmente, pelo número de ovelhas. Enquanto que para nós já é impressionante ver um rebanho de cem animais, no passado deviam existir rebanhos enormes no Oriente Próximo. Jó já possuía 14.000 cabeças de gado miúdo (Jó 42:12). Provavelmente tratava-se sobretudo de ovelhas. De qualquer modo, ele utilizava cães para as proteger (Jó 30:1) e falava da lã dos seus cordeiros (Jó 31:20). Um homem abastado como Nabal possuía 3.000 ovelhas (1Sm 25:2). E, numa grande vitória sobre os midianitas, só entre o espólio de guerra havia 675.000 cabeças de gado miúdo (Nm 31:32). O rei moabita Mesa, que governava na região do atual Jordão, pagava a Israel um tributo anual de 200.000 animais (2Rs 3:4), e Salomão ofereceu 120.000 ovelhas na dedicação do templo (1Rs 8:63; 2Cr 7:5).
A pertença das ovelhas desempenha um papel importante quando o rebanho é usado como ilustração do povo de Deus. Em vinte versículos, Deus fala das Suas ovelhas e descreve nesse contexto o Seu cuidado: «eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei» (Ez 34:11) e «As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem» (Jo 10:27) – «Porque ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas da sua mão. Se hoje ouvirdes a sua voz» (Sl 95:7; cf. Sl 79:13; 100:3). As ovelhas reconhecem o seu pastor e a sua voz. Circula na internet, em vários sites de devocionais bíblicos, a história de um pastor de Karlsruhe, a quem foram roubadas 111 ovelhas. Mais tarde, perante um rebanho de 5.000 animais numa estação de carga em Colónia, ele conseguiu chamar as suas ovelhas e elas vieram para fora, o que, para os polícias que o acompanhavam, bastou como prova de que ele era o legítimo proprietário. Talvez seja apenas um «conto de fadas», pois infelizmente este relato não pode ser verificado. Em qualquer caso, este evento poderia ter acontecido assim, como o mostra outra história: a 23 de outubro de 2019, foram roubadas seis valiosas ovelhas Dorper ao criador amador de ovelhas Karl-Heinz Klee, de Pohlheim; que as reencontrou posteriormente num rebanho em Nidda, a 40 quilómetros de distância. Ele conseguiu também mostrar à polícia que os animais que ele dizia serem seus, respondiam ao seu chamado. Infelizmente, os agentes não eram versados o suficiente no conhecimento sobre ovelhas para avaliar corretamente o valor probatório desta demonstração, uma vez que as marcas auriculares tinham sido trocadas e indicavam outro proprietário. Só quando apareceu outro ovinocultor lesado, é que se deram início às investigações, que revelaram que metade do rebanho de 200 animais tinha sido furtado.

Como em Israel havia vários rebanhos a pastar frequentemente lado a lado (Gn 13:7) ou eram levados juntos ao bebedouro (Gn 29:2-10; Ex 2:17), os animais precisavam de ser marcados para serem identificados e atribuídos ao respetivo dono. Isto era feito marcando a parte inferior da pata traseira ou, especialmente nas raças com muita lã, fazendo um entalhe na orelha. Se os animais ao seu cuidado não fossem do próprio pastor, era importante que este fornecesse ao proprietário uma prova, caso as ovelhas fossem despedaçadas por predadores (Ex 22:13). O profeta Amós faz uma referência irónica a isto, quando anuncia juízo ao reino do Norte de Israel: «Como o pastor livra da boca do leão as duas pernas ou um pedacinho da orelha, assim serão livrados os filhos de Israel» (Am 3:12). Embora o pastor pudesse provar com estes restos despedaçados que a ovelha estava perdida, não havia qualquer indício de um «resgate».

Há um paralelo interessante referente à marcação por entalhe da orelha, como sinal de posse, também ordenada pela Lei para um servo (na verdade, um escravo segundo a lei judaica) que renunciasse à sua liberdade: «Mas, se aquele servo expressamente disser: Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos, não quero sair forro, então, seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao postigo, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e o servirá para sempre» (Ex 21:5.6). Isto é uma bela representação daquilo que o Senhor Jesus fez, como Servo de Deus (Is 42:1; 52:13; 53:11; At 3:13.26). Por amor ao Seu Senhor (Deus Pai), à Sua Esposa (a Igreja) e aos Seus filhos (o povo de Israel), Ele deixou-Se trespassar, como tinha sido anunciado profeticamente: «os meus ouvidos abriste» (Sl 40:6; cf. Hb 10:5-7), e serve para sempre.

«Procura conhecer o estado das tuas ovelhas; põe o teu coração sobre o gado … Quando se mostrar a erva, e aparecerem os renovos, então, ajunta as ervas dos montes. Os cordeiros serão para te vestires, e os bodes, para o preço do campo. E haverá bastante leite de cabras para o teu sustento, para sustento da tua casa e para sustento das tuas criadas» (Pv 27:23-27). Estes versículos revelam os usos comuns dos animais domésticos. Enquanto que os jovens machos excedentes eram vendidos (para abate) e a produção de leite era o foco principal das cabras, as ovelhas já eram criadas principalmente para a produção de lã.

Existem raças de ovelhas com uma grande variedade de cores de pelagem, mas esta comparação poética de um cântico de amor sugere que os animais em Israel tinham, habitualmente, lã branca: «Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro» (Ct 4:2; cf. 6:6). Igualmente, as declarações sobre Deus, «quem dá a neve como lã» (Sl 147:16), sobre Jesus, «E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve» (Ap 1:14), e o versículo: «ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã» (Is 1:18) também apontam para isso. Não obstante, havia também animais avermelhados, castanhos, pretos, salpicados, listrados, malhados e pintalgados (Gn 30:32.39). Mas eles eram claramente considerados então como de menor valor – embora o requisito de ser «imaculado» se referisse à saúde, o animal perfeito para o sacrifício, pelo menos numa época posterior, era também «incontaminado» (cf. 1Pe 1:19).
A lã de ovelha (hebraico: ṣemer, 16x; aramaico: ’amar, Dn 7:9; e grego: erion, Hb 9:19; Ap 1:14) era uma mercadoria muito procurada na Antiguidade (Ez 27:18) e manteve grande importância económica até ao cultivo moderno do algodão e ao desenvolvimento de fibras sintéticas artificiais. A tosquia proporcionava aos criadores de ovelhas o principal rendimento anual e era celebrada como chag ha-gez – a «festa da tosquia» (Gn 31:19; 38:12; Dt 18:4; 1Sm 25:2; 2Sm 13:23).

Ainda hoje, em grandes regiões produtoras de ovinos, como a Austrália, realizam-se grandes «festivais de tosquia de ovelhas», muitas vezes com concursos entre os melhores tosquiadores. Os campeões mundiais são verdadeiros atletas e forças da natureza. No site https://shearingrecords.co.nz encontram-se os atuais recordistas. As suas façanhas são incríveis. A 28 de janeiro de 2023, Aidan Copp tosquiou 605 cordeiros seguidos! Ele podia ainda ter tosquiado mais quatro ou cinco, mas ficou sem animais quando faltavam apenas 4 minutos e 36 segundos para atingir o limite de tempo de 8 horas. Já foram escritos livros inteiros sobre as propriedades e qualidades especiais da lã de ovelha. A ilustração acima dá, pelo menos, uma pequena impressão da complexidade da sua estrutura.


Os animais de sacrifício prescritos com mais frequência eram os «cordeiros de um ano, sem defeito», mencionados em 52 versículos bíblicos. Só no âmbito do serviço regular do templo, mais de mil cordeiros eram sacrificados por ano. Dia após dia, todas as manhãs e todas as tardes, um era queimado como «oferta contínua» (Ex 29:39; Nm 28:4), mais dois cordeiros complementares ao sábado (Nm 28:9), e sete cordeiros adicionais no início de cada mês (Nm 28:11). Nas seis «Festas do SENHOR», eram queimados sete cordeiros em cada festa e, durante a Festa dos Tabernáculos, eram queimados adicionalmente mais 106 (Nm 28–29). Eles eram conduzidos através da Porta das Ovelhas (hebraico: ša‘ar ha-ṣō’n: Ne 3:1.32; 12:39; grego: probatikos: Jo 5:2) para o recinto do templo, a fim de ali serem vendidos aos peregrinos (Jo 2:14) e mais tarde sacrificados no altar. O cordeiro é o sacrifício por excelência e representa frequentemente todos os outros animais de sacrifício.

Embora já houvesse indicações no Antigo Testamento de que os sacrifícios de animais não podiam ser a solução final para o problema da culpa e do pecado do ser humano, isso era de difícil compreensão para os judeus. Declarações proféticas sobre a ação salvífica de Deus, como por exemplo Isaías 53:7: «Ele foi oprimido, mas não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca», só se tornaram claras depois de se terem cumprido. É verdade que João Batista já se tinha referido a isso, quando disse acerca do Senhor Jesus: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!» (Jo 1:29.36), mas mesmo os Seus discípulos só compreenderam verdadeiramente o seu significado depois de terem encontrado o Seu Senhor ressuscitado. Mais tarde, Filipe, no seu encontro com o eunuco etíope, pôde referir-se precisamente a este versículo de Isaías como ponto de partida «e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus» (At 8:35). Os primeiros cristãos, tanto judeus como gentios, compreendiam agora que Deus os tinha redimido «com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado» (1Pe 1:19). Talvez um dia nós próprios também nos apercebamos que ainda não conhecemos plenamente o nosso Senhor. Como homem, Ele revelou as qualidades de um cordeiro – «manso e humilde de coração» (Mt 11:29) – e é assim que Ele se nos apresenta ainda hoje. Mas, quando o tempo da graça terminar, a «ira do Cordeiro» (Ap 6:16) – uma expressão quase paradoxal – trará Juízo impiedoso sobre os seres humanos.
Uma história muito especial sobre ovelhas remonta a Julius Anton von Poseck (1816–1896), um dos pais fundadores do «movimento dos Irmãos» na Alemanha. Embora conhecesse a Bíblia, estudou filosofia em Münster e Berlim e, como jovem homem bem-sucedido e abastado, de origem nobre e reputação impecável, não via motivo para se reconhecer como pecador e pedir perdão a Deus.
Contudo, a 15 de agosto de 1848, a sua atitude mudou drasticamente. Enquanto participava nas comemorações do 600º aniversário da colocação da pedra angular da Catedral de Colónia, uma pedra desprendeu-se do parapeito do edifício e esmagou uma jovem que se encontrava exatamente no sítio onde ele próprio estivera momentos antes. Ele apercebeu-se de que, enquanto rejeitasse Jesus como Salvador, um dia O encontraria como seu Juiz: «Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair será feito em pó» (Lc 20:18). Isso levou-o a converter-se e a confessar os seus pecados a Deus.

Alguns anos mais tarde, ele visitou a igreja de São Ludgerus em Essen-Werden. Durante uma visita guiada, foi explicada a escultura de pedra de uma ovelha, que estava embutida sob a aba do telhado: «Quando um telhador reparava o telhado danificado da igreja, o gancho, ao qual a sua escada estava presa, partiu-se. Uma queda terrível no abismo, que inevitavelmente lhe teria causado a morte, foi atenuada pelo facto de ele ter caído sobre o dorso macio de um cordeiro que pastava na relva, e que foi esmagado pelo homem que caía. Assim, o telhador escapou com vida; sem partir um único osso. Com o coração agradecido por essa graça de Deus, mandou esculpir o cordeiro em pedra e colocá-lo na alvenaria da borda do telhado.» Esta história impressionou muito von Poseck, porque ilustra como Jesus, como o Cordeiro de Deus, tomou o nosso lugar. Nós somos salvos e preservados – «Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e, pelas suas pisaduras, fomos sarados» (Is 53:5).
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Créditos de Imagem:
Wikipédia: Ovelha deitada de costas / Erin Evan // Ovelha – meia tosquiada / Paul // Tosquiador a trabalhar / lQEDjT-_MXaMJQ no Google Cultural Institute // Turma de tosquiadores / https://livingheritage.lincoln.ac.nz/nodes/view/7472 // Carneiro nos espinhos / Jemima Blackburn // Igreja de São Ludgero em Essen / Zairon
outras licenças: capa – ovelha com cordeirinho / shutterstock ID_2303507213 / imageBROKER.com // Ovelha-jacobina / shutterstock ID_459140173 / Nancy Kennedy // Ovelha-de-garaizão-gordo / shutterstock ID_1996045622 / Alan Sau // Ovelha-de-cauda-gorda / shutterstock ID_576400528 / mikluha_maklai // Pastor no Paquistão / shutterstock ID_511167769 / Saga Photo and Video // Ovelha a ser virada pelo pastor / shutterstock ID_1547984420 / Sarnia // Pastora com rebanho / shutterstock ID_1449066131 / Sakdawut Tangtongsap // Mão com cajado de pastor / shutterstock ID_2061886700 / ArtMari // Ovelha com marcas auriculares – fundo recortado / shutterstock ID_1513687982 / Clara Bastian // Ovelha salva pelo pastor / Alfred Usher Soord»