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os burros

Os burros são um dos animais de trabalho mais importantes desde que há memória. Embora sejam frequentemente menosprezados como «cavalos do homem pobre», revelam-se, sobretudo no contexto histórico da Bíblia, muitas vezes a melhor escolha e chegaram mesmo a espalhar-se por todo o mundo antes do início da era das máquinas. Ainda que a sua força de trabalho seja pouco requisitada nos países industrializados, continuam a ser apreciados como animais de estimação adaptáveis e amigáveis, pelo que hoje ainda existem cerca de 45 milhões de burros em todo o mundo.

Como foi referido no capítulo anterior, existem várias teorias sobre as relações de parentesco no grupo dos equídeos (Equidae). O burro doméstico atual (Equus asinus asinus) é, geneticamente, o mais próximo do jumento selvagem (Equus asinus). No entanto, há indícios arqueológicos de que o hemíono (Equus hemionus) também se cruzou com as espécies da Mesopotâmia. Até hoje, as três espécies podem cruzar-se entre si, assim como com cavalos e zebras.

Embora a seleção humana e a reprodução seletiva na maioria das espécies de animais domésticos tenham levado a uma diversidade de formas quase inimaginável, existem apenas algumas raças de burros que, além disso, são muito semelhantes entre si. Uma abundância de representações históricas comprova que os burros já tinham a aparência que conhecemos hoje nos tempos bíblicos.

A palavra hebraica chamor (94x) designa o burro em geral e o macho reprodutor em particular. Faz parte das combinações «queixada de um jumento» (Jz 15:15.16) e «cabeça de burro» (2Rs 6:25). A palavra surge também como nome próprio «Hamor» (12x) e ainda na sua forma grega Emmor (At 7:16). A raiz da palavra pode ser reconhecida igualmente no nome persa «Harbona» (Est 1:10; 7:9) que significa «condutor de burros». A palavra grega onos (6x) refere-se aos burros em geral, sem especificar o sexo. A burra, ou égua-burra, é designada pela palavra hebraica aton (28x). Em geral, os animais fêmeas eram muito mais fáceis de lidar e, por isso, eram preferidos. Como não era prática comum em Israel castrar os machos, o burro macho era demasiado selvagem e agressivo para ser considerado adequado como animal de monta ou de trabalho.

Em hebraico, a palavra ajir (7x) refere-se aos animais jovens, que também pode designar os potros (comummente: poldros) de asnos-selvagens e de cavalos e, por isso, acresce-se frequentemente um sufixo («potro do burro»). Em grego, um potro é geralmente chamado de polos (11x) e é apenas uma vez especificado como «o filho de uma jumenta» (Jo 12:15), embora seja esse o termo de qualquer forma. Além disso, aparece a forma diminutiva onarion (Jo 12:14) – «burro jovem, burrinho». Apalavra grega hypozygion (Mt 21:5; 2Pe 2:16) designa um «animal de carga» em geral, mas, em ambos casos, é usada para um burro ou para um potro de burro: huion hypozygiou (Mt 21:5), o «um jumentinho, filho de animal de carga». Quando Lucas usa a palavra ktenos (Lc 10:34; At 23:24), um termo coletivo para o «gado de maior porte», fica em aberto se se estava a referir a burros, cavalos ou mulas. A verdade é que havia preferência na utilização de burros para girar moinhos de grão, o que pode ser reconhecido na expressão mylos onikos (Mt 18:6; Mc 9:42), que se referia a uma grande mó de moinho, literalmente: «mó de burro» (em contraste com a pequena mó manual, 2Sm 11:21).

A «Estrella» vivia no Parque Discovery quase como os seus primos selvagens na estepe. Ela encontrava o seu próprio alimento e água e não fazia exigências, à exceção do tratamento desparasitante, que recebia uma vez por ano. Ainda assim, gostava da companhia humana, vinha a correr quando era chamada e deixava-se selar e montar de bom grado. Esta combinação típica de autonomia, tolerância e submissão dos burros era muito cativante para o autor.

Ao ver um burro, impõe-se a pergunta: por que razão alguém escolheria este animal, em média claramente mais pequeno, mais lento e um pouco mais apático, quando existem excelentes raças de cavalos criadas para uma grande variedade de fins? Contudo, os burros possuem características especiais que explicam o seu sucesso. Em primeiro lugar, está a sua frugalidade. Os burros aproveitam uma gama mais ampla de plantas forrageiras, convertem mais de 30% de nutrientes em alimento, necessitam apenas de cerca de 60% da quantidade e conseguem passar mais tempo sem comida e água em comparação com os cavalos. Isto torna a sua manutenção muito mais económica e é uma grande vantagem, sobretudo em regiões secas com vegetação escassa. Além disso, são mais longevos e menos propensos a doenças. Outro ponto muito favorável é a sua segurança ao caminhar. Não têm medo das alturas e conseguem percorrer caminhos montanhosos e acidentados, que são intransitáveis para os cavalos. Além disso, o desgaste dos seus cascos é muito menor, o que era de grande importância antes do uso de ferraduras, como o revela a pergunta retórica: «Poderão correr cavalos na rocha?» (Am 6:12). As suas orelhas salientes, que podem atingir até 25 cm de comprimento e rodar e inclinar individualmente para escutar numa direção específica, são surpreendentemente eficazes. Em desertos e estepes, onde poucos obstáculos inviabilizam o som, quase não há ruído de fundo e o ar é limpo e calmo, diz-se que os burros conseguem ouvir o seu alto «I-Ah», a distâncias de até 60 quilómetros (!).

«Hop, hop, hop, vamos lá, cavalinho, galopa! Por cima de troncos e pedras – mas não partas as pernas…» Não é preciso dar este aviso aos burros, pois eles estão no seu elemento quando se trata de trotar «por cima de troncos e pedras». A facilidade para escalar e a segurança ao caminhar são os seus grandes trunfos em terrenos montanhosos.

Uma diferença notável em relação aos cavalos reside no seu comportamento sob stress e ameaça. Enquanto que os cavalos procuram instintivamente refúgio na fuga, correndo muitas vezes de forma descontrolada, o burro simplesmente fica parado e pondera cuidadosamente as suas opções. Ele reage de modo semelhante também quando está sobrecarregado, por exemplo, quando lhe carregam demasiado peso ou quando um caminho lhe parece inseguro. Esta particularidade valeu-lhe a fama de teimoso – e impediu-o de ser usado como animal de monta em combate ou como animal de tração para os carros de guerra. É completamente inadequado para o uso militar direto. Quando de repente para e fica imóvel, pode levar o seu cavaleiro ou condutor ao desespero. Isto também explica o comportamento da burra de Balaão quando percebe um perigo mortal que o seu dono não reconhece (Nm 22:22-35).

O facto de o burro preferir lutar em vez de fugir, acaba por lhe ser fatal quando se vê perante um adversário mais poderoso que ele. Este mosaico de chão, datado de 150 d.C., foi encontrado numa villa romana na antiga Hadrumetum (atual Tunísia) e retrata um burro a servir de refeição a um leão.

Quando um burro é surpreendido em terreno aberto por um predador, a sua firmeza salva-lhe muitas vezes a vida. A maioria dos predadores está habituada a perseguir uma manada, a isolar os animais mais lentos e enfraquecidos e a abatê-los quando já se encontram esgotados da perseguição. Um burro saudável e alerta defende-se com coices fortes e certeiros e luta ferozmente pela sua vida. Mesmo os leões que caçam sozinhos preferem procurar presas mais fáceis. É até possível que um leão jovem e inexperiente consiga eventualmente derrubar um burro com as suas «armas» claramente superiores, mas arrisca muito. Se o burro acertar em cheio, pode partir-lhe a mandíbula ou algumas costelas – e um leão ferido entra rapidamente em declínio.

Ainda hoje, a capacidade de defesa do burro é aproveitada – juntando-o a ovelhas ou cabras como animal de proteção do rebanho. Com uma aversão inata, ele ataca agressivamente coiotes e lobos assim que os fareja ou avista. Assim, ele protege o rebanho de forma fiável, seguindo a mesma lógica: uma alcateia de lobos comum é, sem dúvida, capaz de matar um único burro – mas eles são caçadores experientes que sabem avaliar corretamente os riscos.

Na Antiguidade, os burros eram os responsáveis pela maior parte do transporte terrestre de mercadorias. Embora fosse invulgar montar burros no Egito, onde o terreno é predominantemente plano e eles eram apenas utilizados como animais de carga, os habitantes das regiões montanhosas do Próximo Oriente apreciavam a sua “boleia” confiável nestas condições. Os burros têm um passo tranquilo e percorrem, em média, cerca de 40 quilómetros por dia.

A pequena caravana de burros à margem do Saara oferece uma vista harmoniosa. Contudo, os animais realizam um trabalho pesado, pois transportam individualmente quatro placas de sal, cada uma com um peso entre 30 a 40 quilos. Em regiões onde há poucas vias de transporte desenvolvidas e o abastecimento de combustível, óleo, peças sobresselentes etc. só se encontram a grande distância, os burros de carga conseguem competir ainda hoje com os meios de transporte motorizados mais caros.

No que diz respeito à capacidade de carga, a legislação alemã de proteção dos animais estabelece que os burros (saudáveis, com peso normal e treinados) só podem ser carregados com um máximo de 25% do seu peso corporal. Esta medida é certamente bem-intencionada e é aceite, dado que hoje já não existe a necessidade de usar burros como animais de monta ou de carga na Alemanha. A maioria das raças pesa menos de 200 quilos na fase adulta, o que limitaria a carga útil possível a menos de 50 quilos. A Bíblia também contém prescrições para a proteção dos burros. Se alguém soubesse de um burro que se tivesse perdido, deveria devolvê-lo (Ex 23:4) e, se ele estivesse sobrecarregado e caísse devido ao peso da carga, deveria ajudar o dono a libertá-lo – mesmo que se tratasse do seu pior inimigo (Ex 23:5). Aos sábados e nas festividades religiosas (em que o povo não trabalhava), os animais também deveriam poder descansar (Ex 23:12; Dt 5:14).

Os burros são muito resistentes. Infelizmente, a sua utilização na indústria do turismo é excessiva em alguns países. Na Grécia, por exemplo, as pessoas que pesam mais de 100 quilos estão proibidas de montar burros há alguns anos. Esta imagem foi tirada em Petra, na Jordânia, onde atualmente não existem tais restrições.

Contudo, no que diz respeito à carga suportável por um burro, a Bíblia é um pouco mais realista. Moisés fez com que a sua mulher Zípora e os seus dois filhos montassem num burro e, provavelmente, este levou em acréscimo água e provisões (Ex 4:20). Ziba, o servo de Mefibosete, transportou «duzentos pães, com cem cachos de passas, e cem de frutas de verão, e um odre de vinho» em dois burros (2Sm 16:1) – isto demonstra que um burro pode levar uma carga consideravelmente mais pesada. Estudos científicos revelam que ele pode suportar facilmente 50% do seu peso em carga, e, na realidade, é provável que consiga suportar ainda mais, sobretudo no início de uma viagem. Isto torna-se claro ao considerar que a unidade de medida grega kor (de koros = saco, fardo, pacote; Lc 16:7) e a unidade hebraica homer (de chamor = burro; por exemplo, Ez 45:11, 45:13.14) designam um volume de 220 ou 390 litros e são definidas como «carga de burro». Tal quantidade de cereal pesaria entre 120 quilos (=220 litros de aveia) e 340 quilos (=390 litros de trigo) – portanto, esperava-se que estes animais cinzentos robustos carregassem muito mais no passado. A sua elevada resistência harmoniza bem com o burro, como símbolo de humildade e perseverança. A palavra grega para isto é hypomeno, que significa algo como «ficar debaixo (da carga)».

«Com boi e com jumento juntamente não lavrarás» (Dt 22:10). O que era proibido aos judeus na Lei não se aplicava aos muçulmanos. Ao contrário da Bíblia, o Corão não contém prescrições concretas para a proteção dos animais. Na descrição de uma viagem do ano 1884, lê-se: «Os palestinianos de hoje não são assim tão humanos. É comum ver um camelo atrelado a um burro ou a uma vaca a puxar um arado, e é lastimoso… Sim, eu mesmo cheguei a ver alguém a atrelar o seu burro e a sua mulher ao arado, o que naturalmente causou uma impressão dolorosa e é bastante característico da posição da mulher no Oriente.» Estas fotografias da época do Mandato Britânico corroboram o relato.

A legislação alemã de proteção dos animais estabelece igualmente que os burros não podem ser criados isoladamente. Também isto, ao que parece, era bem diferente na Antiguidade. Embora houvesse pessoas ricas que possuíam rebanhos inteiros de burros, como Job, com 1.000 burras (Jó 42:12), nem todas as pessoas tinham o seu próprio burro. A lista dos que regressaram do exílio, dá-nos um pequeno vislumbre dessa realidade. Essas pessoas tinham alcançado um certo nível de prosperidade sob o domínio babilónico e medo-persa. Um animal de carga era certamente de grande utilidade para a longa viagem em direção ao oeste; ainda assim, o grupo de quase 50.000 pessoas foi acompanhado por apenas 6.720 burros (Ed 2:64-67; Ne 7:66-68).

A carne de burro é saborosa e de boa qualidade. Apresenta um baixo teor de gordura e colesterol e tem uma proporção favorável de diferentes ácidos gordos. No entanto, o seu consumo estava interdito aos israelitas, porque o burro era considerado um animal impuro. Somente durante uma grave fome é que uma cabeça de burro foi comercializada como alimento (2Rs 6:25). Na culinária grega e romana, a carne de burro fazia parte de vários pratos – e até hoje existem algumas receitas de salames nobres em que constitui o ingrediente principal (embora, atualmente, tenha sido substituída por carne de bovino e de suíno na maior parte dos casos).

Como os cadáveres não eram aproveitados em Israel, mas sim atirados para fora da muralha da cidade como lixo, eram os animais necrófagos que se encarregavam deles. Se um burro morresse durante uma viagem, este era simplesmente deixado à beira do caminho. Provavelmente, Sansão passou por restos mortais deste tipo quando apanhou uma queixada (isto é, metade da mandíbula inferior) e com ela matou um «montão» de filisteus. Exprimindo a sua alegria pela vitória, recorreu a um pequeno jogo de palavras, o que era apropriado ao caso, porque as palavras «montão» e «burro» soam de forma semelhante: Schimschon bilchi ha-chamor – ha-chamor ha-moratajim! – Sansão amontoou um montão (dos seus inimigos) com a queixada de um burro (Jz 15:14-16).

Em alguns países, como aqui em Marrocos, os burros que já não servem para trabalhar são deixados à beira da estrada (a não ser que o animal morra nas proximidades de uma povoação). O osso à esquerda é uma «queixada de burro». Sansão brandiu-a como arma e com ela matou 1.000 filisteus (Jz 15:15).

O cadáver abandonado na vala à beira da estrada é novamente mencionado num contexto triste: como castigo pelo seu desprezo pela palavra de Deus, é anunciado ao rei Jeoaquim que ele será sepultado numa «sepultura de jumento» (Jr 22:19) – ou seja, não será sepultado. Em vez disso, ele seria «arrastado e lançado fora, para longe das portas de Jerusalém» – «e será lançado o seu cadáver ao calor de dia e à geada de noite» (Jr 36:30).

O burro é um animal de trabalho que, embora seja impuro por natureza (Lv 11:1-8), pode submeter-se de boa vontade ao serviço e é muito apreciado. Por estas características, torna-se num símbolo do ser humano que necessita de redenção. Esta passagem ilustra isto de forma impressionante: «apartarás para o SENHOR tudo o que abrir a madre e tudo o que abrir a madre do fruto dos animais que tiveres; os machos serão do SENHOR. Porém tudo o que abrir a madre da jumenta resgatarás com cordeiro; e, se o não resgatares, cortar-lhe-ás a cabeça; mas todo primogênito do homem entre teus filhos resgatarás.» (Ex 13:12.13). Nestes três versículos há muita informação: Deus reivindica para Si todos os primogénitos do sexo masculino, tanto de pessoas como de animais. No caso dos animais puros, o primogénito deveria ser sacrificado (cf. Nm 18:17). Os animais impuros e as pessoas não podiam ser oferecidos em sacrifício, mas deviam ser resgatados (cf. Nm 18:15.16). Se um burro não pudesse ser resgatado por um cordeiro, o seu pescoço deveria ser quebrado (cf. Ex 34:20). Esta prescrição tinha um objetivo didático: através dela, podia-se explicar às crianças o que significava redenção. Se quisessem saber porque é que o cordeiro tinha de morrer, o pai poderia explicar: «Há o puro e o impuro. O burro é impuro, tal como nós, seres humanos, também somos impuros. Deus não pode aceitar o burro; na verdade, eu teria de lhe partir o pescoço e lançá-lo para o monte de lixo. Mas, se eu sacrificar o cordeiro puro no seu lugar, o burro poderá continuar a viver. Ele crescerá – e, quando for grande e forte, servir-nos-á com a sua força.»

Este mandamento antecipa, assim, os princípios fundamentais do Evangelho. O ser humano, como propriedade do Criador, é impuro devido ao seu pecado. Por isso, está sob uma sentença de morte que tem de ser executada – a menos que seja resgatado pelo seu proprietário. Foi exatamente isso que Deus fez: «sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que, por tradição, recebestes dos vossos pais» (1Pe 1:18).

O «sacrifício de Isaque» inspirou inúmeros artistas a criarem obras grandiosas. Em representações ilustrativas, como neste quadro do pintor holandês Gerard Hoet (1648-1733), é frequente descobrir-se um pormenor notável, pequeno e distante (aqui assinalado com um círculo): os servos e o burro têm de ficar longe do local onde Abraão sobe a um monte com Isaque para o oferecer em sacrifício (Gn 22:4.5). Nem judeus nem gentios tiveram a perceção do que aconteceu espiritualmente em Gólgota, quando Deus julgou o pecado do mundo no Seu Filho, como cumprimento deste esboço profético.

No caminho que o Senhor Jesus percorreu para Se tornar o Cordeiro sacrificial de Deus, há, no início e no fim, uma referência simbólica ao burro. No Seu nascimento, é mencionada apenas uma manjedoura (Lc 2:7.12.16), na qual Ele foi deitado. Como, porém, ao lado havia uma estalagem para viajantes completamente ocupada, é provável que houvesse animais de monta e de carga junto à manjedoura. De qualquer modo, através da palavra-chave «manjedoura», desde cedo se estabeleceu uma ligação com o seguinte versículo: «O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, a manjedoura do seu dono, mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende» (Is 1:3).

Desde o século IV, que o «boi e o burro» fazem parte integrante do «presépio», como é chamada a representação ilustrativa do nascimento do Senhor. Os Pais da Igreja foram ainda mais longe na sua interpretação da passagem de Isaías, ao equipararem o boi (um animal puro, mas que carrega o «jugo da Lei») a Israel, que, embora conheça o seu dono, não percebe que Ele veio até eles sob a forma desta criança. E, por sua vez, eles identificaram o burro (como animal impuro que precisa de ser resgatado) com os não-judeus (gentios, nações), que reconhecem que esta é a «manjedoura do seu Senhor», submetem-se a Ele e tornam-se Seus seguidores (cristãos).

Nenhum presépio de Natal está completo sem o “boi e o burro”. Às vezes, no entanto, dominam a cena, deixando o espectador a questionar-se sobre quem será realmente o protagonista.

A aparição mais famosa do burro na Bíblia ocorre no Domingo de Ramos, quando o Senhor Jesus entra na cidade de Jerusalém montado num jumentinho e é proclamado publicamente como Messias. Assim, Ele cumpriu a profecia: «Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e Salvador, pobre e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta» (Zc 9:9). É surpreendente que o Senhor não Se sente na jumenta, que é, provavelmente, muito maior, mas sim no seu jumentinho – afinal, ambos os animais são preparados e apresentados à escolha: «trouxeram a jumenta e o jumentinho, e sobre eles puseram as suas vestes, e fizeram-no assentar em cima» (Mt 21:7).

Em algumas raças de burros, a listra dorsal cruza-se com uma faixa crucial sobre os ombros, formando aquilo a que se chama a marca da cruz. A ideia de que os burros receberam esta marca da cruz quando o Senhor Jesus entrou em Jerusalém montado num deles no Domingo de Ramos é apenas uma lenda. Mas, em contraste com o burro selvagem, que não deixa que nada lhe «cruze» o caminho, isto parece a marca simbólica de um «portador da cruz» domesticado (Mc 8:34; Lc 9:23).

Mais surpreendente ainda, é o facto de que ninguém jamais tivesse montado este jovem animal (Mc 11:2). Normalmente, os burros precisam de ser domados. Do ponto de vista natural, é improvável que um animal que nunca carregou um cavaleiro se submeta de imediato e caminhe calmamente pelo meio de uma multidão a gritar e a agitar ramos de palmeira. Também é contra a sua natureza passar por cima das roupas e dos ramos que as pessoas espalharam pelo caminho. Seria de esperar que o jumentinho desse coices selvaticamente e fugisse, ou se recusasse completamente a obedecer. Mas, ao serviço do Senhor Jesus, ele carrega-O obedientemente pela cidade. Toda a cena é um milagre.

Neste dia também terminaram as 69 semanas de anos (exatamente 173.880 dias, como foi exposto pela primeira vez no livro The Coming Prince [O Príncipe que Há de Vir]), após as quais o profeta Daniel anunciou a vinda do Messias (Dn 9:25). Contudo, o versículo seguinte atesta que depois o Messias seria desarraigado ou «exterminado». Para os judeus que ainda hoje aguardam o Messias, o significado desta profecia não é claro, pois contradiz aquilo que associam à Sua vinda. Só no Novo Testamento é que se torna claro que esta declaração se cumpriu quando o Senhor Jesus foi crucificado alguns dias depois.

O burro também desempenha um papel simbólico. O Senhor Jesus não veio como juiz, mas como Salvador (Jo 3:17), para nos reconciliar com Deus (Rm 5:10; 2Co 5:18-20), «estabelecendo a paz pelo seu sangue vertido na cruz» (Cl 1:20, KJA). Ele entrou em Jerusalém (= «fundação da paz») e deixou clara a Sua intenção de promover a paz ao montar um jumento. Como já foi referido, o burro não é adequado para a guerra. Além disso, os homens montados em burros (pequenos!) não constituem uma visão particularmente digna, embora o próprio ato de montar já demonstre uma certa dignidade (cf. Jz 5:10; 10:4; 12:14). Assim, o Senhor Jesus exprime também a Sua humildade. Ele não veio para governar nem «para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos» (Mc 10:45).

Tal como o cordeiro e o burro já eram descritos como tendo uma relação especial na Lei Mosaica (Ex 13:13), também aqui se pode comparar o jumentinho com o Senhor Jesus, o Cordeiro de Deus:

  • Enquanto que os burros são, por natureza, teimosos e obstinados (Sl 32:9), Ele foi obediente «até à morte e morte de cruz» (Fp 2:8).
  • Enquanto que o jumentinho nunca tinha carregado nada (Mc 11:2; Lc 19:30), o «filho do carpinteiro» (Mt 13:55), sendo ele próprio também carpinteiro (Mc 6:3), provavelmente Ele carregou vigas de madeira como operário de construção desde a juventude e, em breve, o faria pela última vez.
  • Enquanto que o jumentinho foi libertado e desatado (Mt 21:2; Mc 11:4; Lc 19:33), Ele seria pouco tempo depois preso e amarrado (Mt 27:2; Mc 15:1; Jo 18:12).
  • Enquanto que o burro foi cuidadosamente coberto e adornado com capas (Mt 21:7; Mc 11:7; Lc 19:35), Ele estaria prestes a ser despido e a expor a Sua nudez (Mt 27:28).
  • Enquanto que o burro pôde continuar a viver, Ele morreria como Cordeiro.
O grafite de Alexamenos, descoberto em 1857, é um desenho riscado numa parede de uma antiga sala da guarda imperial em Roma. Trata-se de uma das representações mais antigas da cruz de Jesus – embora o «artista» tivesse a intenção de ridicularizar a fé no Crucificado. O homem na cruz tem, de facto, uma cabeça de burro. Um legionário fardado, presumivelmente um camarada do desenhador que se tinha tornado cristão, ajoelha-se diante da cruz e levanta a mão.

A inscrição irónica do grafite de Alexamenos diz: «Alexamenos adora o seu deus». Involuntariamente, o desconhecido rabiscador exprime assim até uma verdade profunda, pois Deus tornou-Se homem e deixou-Se realmente «transformar em burro» por nós na cruz. Ainda hoje, muitas pessoas consideram «a palavra da cruz» uma loucura (1Co 1:18) e insensatez. Para o crente, porém, ela é «o poder de Deus».

O facto de o Messias, como Santo e Puro, usar um burro impuro para nele montar foi, desde sempre, um motivo de discussão entre os comentadores judeus. O autor israelita Seffi Rachlewski causou grande alvoroço quando, no seu livro O Burro do Messias, expôs como os judeus ortodoxos aplicam esta cena à situação atual. O rabino Abraham Kook (1865–1935) já a via um símbolo do movimento sionista: os judeus seculares, que não viviam segundo os mandamentos e tradições do judaísmo, não acreditavam no Deus de Israel nem esperavam pelo Messias, eram, de facto, pecadores ímpios, mas, independentemente das suas próprias intenções, estavam a fazer um bom trabalho porque estavam a preparar o caminho para o Messias. Eles são, portanto, sem o saber, instrumentos necessários no plano de salvação de Deus, embora a redenção vindoura não se aplique a eles – são, por assim dizer, «idiotas diligentes e úteis». Segundo Rachlewski, os judeus ortodoxos também transferem esta visão para o Estado moderno de Israel. Embora se deixem sustentar e proteger por ele, eles próprios não contribuem com nada para isso e, no fundo, rejeitam-no. Toleram o Estado apenas como um mal necessário – uma medida temporária que presta ajuda durante o período de transição – até que o Messias venha e o substitua por algo novo.

Do ponto de vista da profecia bíblica, esta expectativa é justificada – exceto pelo facto de que Jesus virá como Messias e Juiz. No entanto, quando se trata de saber lidar com pessoas, um homem como Paulo é o melhor modelo do Novo Testamento para se relacionar com compatriotas judeus incrédulos. Em vez de os desprezar, ele sentia «grande tristeza» e «dor incessante» e tinha por eles um amor tão profundo que, se isso fosse possível, se teria sacrificado por eles (Rm 9:1-3). Felizmente, hoje em dia há um número crescente de «judeus messiânicos» em Israel. Muitos deles cresceram no judaísmo, tal como Paulo, mas depois reconheceram o Senhor Jesus como o Messias e agora proclamam-No entre os seus compatriotas.

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Créditos de Imagem:

Wikipedia: Mosaico – burro dilacerado por leão / sailko // Burro com turista obeso / arie tennbaum // Lavrar com boi e burro / aunknown // Lavrar com boi e burro / Matson Collection // Lavrar com camelo e burro / Balassa Péter // Lavrar com camelo e burro / Hauran // Abraão oferece Isaque – burro e servos / P. de Hondt // Desenho satírico com burro crucificado / Mpolo // Pintura – entrada de Jesus em Jerusalém / Julius Schnorr von Carolsfeld
Burro excessivamente carregado / Adam Jones // Dois burros a caminhar / Aditya Gurav // Relevo de burro do túmulo de Sacara / Prof. Mortel

outras licenças: Título – burro de pé ao sol / Shutterstock ID_1784401565 / Melnikov Dmitriy // Burro em terreno escarpado / Shutterstock ID_1598706946 / DELBO ANDREA // Caravana de burros com placas de sal / Shutterstock ID_115579186 / James Michael Dorsey // Ossos de burro à beira da estrada / Shutterstock ID_788391709 / Sarnia // Presépio com boi e burro / Shutterstock ID_1539375545 / Steven Irons // Burro com marca de cruz no dorso / Shutterstock ID_2306622585 / Sabine Hagedorn

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