Embora antigamente os hipopótamos fossem muito comuns em grande parte da Ásia Ocidental (e até na Europa), já há muito tempo que estão extintos no Médio Oriente. Provavelmente, já não existiam em Israel na época da posse da terra, embora os israelitas os devessem conhecer do Egipto, onde só foram erradicados no início do século XIX. Também nas traduções alemãs da Bíblia, eles vão desaparecendo cada vez mais…
Os viajantes europeus encontraram pela primeira vez no Egipto a única espécie sobrevivente do género Hippopotamus, o hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) e deram‑lhe o termo correspondente «Nilpferd» (animal do Nilo), o qual se conserva até hoje. Desde a sua primeira descrição científica em 1758, os desenhos começaram a circular também na Europa. A constituição robusta dos animais, que por vezes chegam a pesar mais de duas toneladas, e especialmente as suas enormes mandíbulas com os caninos semelhantes a presas, aguçavam a imaginação, e assim tornaram‑se num motivo de ilustração bastante popular.

Logo desde muito cedo, os estudiosos atribuíram a estes colossos, que apenas conheciam por relatos, a descrição bíblica do Beemote em Jó 40:15‑24. A primeira referência escrita encontra‑se na obra Hierozoicon (1663), de Samuel Bochartus. Nas línguas russa e ucraniana, a expressão «Behemot» (Бегемот) tornou‑se inclusive o nome comum para o hipopótamo. No entanto, não há evidência extrabíblica de que esta palavra tenha sido usada em hebraico ou aramaico para o hipopótamo. Também a expressão árabe correspondente «Bahīmūth» ou «Bahamūt» designa um monstro (às vezes semelhante a um peixe), mas de modo algum o hipopótamo.
Desde essa época, quando pouco se sabia acerca de animais exóticos, a classificação do hipopótamo em Jó 40:15 como o Beemote da Bíblia, foi adotada por alguns tradutores. Pode ainda ser encontrada em algumas traduções, como na Bíblia Almeida Recebida (1848), na Bíblia Almeida Revista e Atualizada (1959 e 1993) e na Bíblia King James Atualizada (2019), mas, no caso da Bíblia Almeida, o termo acabou por ser corrigido em revisões posteriores. Assim, encontra‑se o hipopótamo na Almeida Recebida no texto de 1848, mas este já não consta na Almeida Revista e Corrigida, quer na edição de 1969, quer na de 2009. Pode dar-se o caso, quanto muito, de ser incluída uma nota de rodapé na página do texto bíblico, onde se refere: «ou, Hipopótamo» (ARC, 1968) para dar um possível significado plausível à palavra Beemote.
Muitos tradutores, contudo, suspeitaram com prontidão que o animal descrito não correspondia a nenhuma das espécies vivas atualmente, e decidiram deixar o termo hebraico «Behemot(h)» sem tradução (como na Bíblia para Todos, Nova Almeida Atualizada, Nova Versão Internacional, Almeida Revista Fiel, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Almeida Antiga, Nova Versão Transformadora, Bíblia Viva, Almeida Século 21, A Mensagem).
Estas criaturas redondas e barrigudas, com os seus sorrisos bem-humorados e a alcunha engraçada de «Hipo», são cativantes para a maioria das pessoas. Quando emergem da água a bufar, a espirrar água pelas orelhas salientes com movimentos circulares rápidos, ou quando estão deitadas de barriga para baixo, com as quatro patas esticadas, a dormitar ao sol, rosadas de vermelho, não há como evitar sorrir.
É importante lembrar, contudo, que eles têm consciência das suas capacidades de defesa e que, pelo menos os machos dominantes, «pensam territorialmente». A sua secção do rio é o seu território e qualquer intruso será expulso. Circulam histórias de arrepiar sobre o perigo dos hipopótamos. Por vezes, lê‑se que os seus caninos ceifam mais vidas humanas do que as presas letais dos leões. Todavia, não existe uma estatística mundial para «acidentes com animais selvagens», e a maioria das afirmações baseia‑se em estimativas. Existem, no entanto, estudos específicos nos quais se recolheram dados exatos, como ilustrado na figura.

Enquanto que na Zâmbia, um país com vastas regiões de água e zonas húmidas, habita a maior população de hipopótamos do planeta, no Moçambique vizinho — que também se encontra ao longo do Zambeze, mas que consiste maioritariamente em savana — existem proporcionalmente mais outras espécies de animais selvagens perigosos. Como os hipopótamos só se encontram em poucas regiões africanas, que são ricas em água, e a maior parte do continente está coberta por savanas secas e desertos, os dados de Moçambique representam claramente melhor a situação global. Mesmo que o seu perigo possa ser, por vezes, um pouco exagerado, ambos os rankings mostram que convém ter cuidado com eles.
Ao longo dos séculos, escreveu-se muito sobre a identidade do Beemote. Na bibliografia constam dois trabalhos que oferecem uma boa visão geral. O livro O Segredo do Leviatã é especialmente recomendado. Como, das muitas soluções propostas, apenas a atribuição do hipopótamo foi incluída em algumas traduções da Bíblia, vamos aqui limitar-nos a ela.
O hipopótamo é um herbívoro pacífico que pasta calmamente, mas que, num instante, pode tornar‑se numa ameaça mortal – à primeira vista, esta caracterização encaixa perfeitamente com o Beemote em Jó 40:15. Provavelmente, ainda era comum no Médio Oriente na época de Jó. E quanto às outras características?
«Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder, nos músculos do seu ventre […] Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro» (Jó 40:16.18) – os hipopótamos são, de facto, surpreendentemente fortes e rápidos. A sua construção óssea maciça conduz a um peso específico incomum e ao facto notável de que, embora passem a maior parte do tempo na água, não conseguem nadar e, mesmo com pulmões cheios, afundam‑se.
«Quando quer, move a sua cauda como cedro» (Jó 40:17a) – O verbo traduzido aqui por «mover» aparece apenas nesta passagem e tem sido também traduzido por «transportar, dobrar, estender, deixar pendente». Não é possível determinar com exatidão. Mas, à parte disto, ainda ninguém encontrou um paralelo sensato entre o cedro, uma conífera imponente, e a cauda curta com formato de pincel do hipopótamo. Por vezes, ele roda‑a como uma pequena hélice e usa-a para espalhar os seus excrementos como marcador do território.

«Os nervos das suas coxas estão entretecidos» (Jó 40:17b) – No hipopótamo não se verificaram particularidades anatómicas neste aspecto. No que toca à musculatura e à estrutura dos tendões, são semelhantes a outros grandes herbívoros.
«Ele é obra-prima dos caminhos de Deus» (Jó 40:19a) – Isto soa a superlativo. Esperar‑se‑ia que Deus, ao descrever o Beemote, referisse o animal mais impressionante (entre os herbívoros) que Jó conhecia, seguido do Leviatã como o predador mais forte e perigoso. Dependendo do contexto cronológico e geográfico do livro de Jó e dos pressupostos geológicos, estes poderiam, de facto, ter sido o hipopótamo e o crocodilo.
«O que o fez o proveu da sua espada» (Jó 40:19b) – Os grandes caninos são uma característica visível e não podem faltar numa descrição do hipopótamo. Num texto poético poderiam, possivelmente, ser chamados de «espada».

«Em verdade, os montes lhe produzem pasto, onde todos os animais do campo folgam. Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo dos canaviais e da lama. As árvores sombrias o cobrem com a sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam. Eis que um rio transborda, e ele não se apressa, confiando que o Jordão possa entrar na sua boca» (Jó 40:20‑23) – Os hipopótamos modernos vagueiam essencialmente por planícies e vales fluviais e evitam grandes declives. Nesse sentido, «os montes» aqui parecem um tanto fora do lugar, mas de resto a descrição encaixa perfeitamente. No antigo «Mosaico do Nilo de Palestrina» até mesmo as flores brancas de lótus estão representadas.

«Podê-lo-iam, porventura, caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz?» (Jó 40:24) – esta é outra grande fraqueza. No seu discurso, Deus faz a Jó (Jó 38‑41) mais de setenta perguntas retóricas; assim aqui também. A mensagem é: Tu não és capaz de domar o Beemote. Mas o facto é que os hipopótamos (assim como os crocodilos) têm sido caçados com sucesso desde os tempos antigos (e quase em toda parte exterminados). Apesar da sua força e agressividade, não são invencíveis. Não conseguem seguir o caçador em águas profundas e não são particularmente inteligentes.
Embora a comparação seja mista, a descrição é a que mais se corresponde ao hipopótamo entre os animais vivos. A situação é diferente quando são incluídas as espécies extintas. A «Schlachter 2000» acrescenta uma nota útil sobre o Beemote: «A descrição aponta para um dinossauro herbívoro, e não, como se pensava anteriormente, para o hipopótamo.»

Referências:
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Créditos de Imagem:
Wikipedia: crânio de hipopótamo / Raul654 // caça de hipopótamo / WolfgangRieger
outras licenças: hipopótamo na água / Shutterstock ID_418437226 / Sergey Uryadnikov // hipopótamo no fundo de curso de água / Shutterstock ID_470934629 / Lena Ivanova // rabinho de hipopótamo / Shutterstock ID_791640805 / Jana Alfares